O tema deste artigo vem como resposta a algumas dúvidas recebidas por e-mail e comentários aqui no blog. Há certa preocupação dos pais quando percebem que os filhos tem alguma dificuldade de socialização, falam pouco ou não gostam de ambientes novos.

O primeiro ponto importante a se considerar é que nem toda criança tímida precisa de ajuda profissional. É normal que algumas pessoas sejam mais introvertidas, mais reservadas ou, simplesmente, não gostem de falar muito mesmo. Mas é claro que a timidez pode atrapalhar algumas fases do desenvolvimento e como consequência gerar um sentimento de insegurança e pouca autoconfiança, que pode atravessar a infância e se prolongar pela vida adulta.

É possível que a família ajude a trabalhar esta timidez, mas em alguns casos – e na tentativa de ajudar – a família também pode acabar agravando este comportamento e a criança pode ficar ainda mais retraída. Então, vamos falar primeiro do que não fazer para tentar ajudar uma criança tímida:

  • Não a obrigue a participar de situações indesejadas:

Forçar a criança a interagir, a falar em público ou a participar em momentos em que ela esteja claramente tímida é um erro. Muitos adultos fazem isso acreditando que assim ela irá “enfrentar” a situação e depois irá perceber que “não foi tão ruim assim”. Mas, na maioria dos casos, o efeito é exatamente o oposto: a criança se retrai ainda mais e tende a evitar passar novamente por aquela situação.

  • Não a compare com outras crianças:

Evitar dizer coisas do tipo: “veja seu coleguinha, como brinca com todo mundo, fala com todo mundo, por que você não faz isso também?” Essas comparações não são nada saudáveis e não ajudam a criança a mudar seu comportamento, pelo contrário, aumentam o sentimento de insegurança e prejudica sua autoestima.

  • Não a ridicularize, não a exponha negativamente e não menospreze o que ela sente:

É preciso compreender que para a criança, a socialização pode ser algo realmente difícil de se superar, por mais que ela queira. Ver os adultos conversando sobre ela e reclamando de sua timidez como se simplesmente ela não estivesse presente, é algo muito ruim, assim como fazer piadas ou afirmar que ela “está com frescuras”, que “isso é besteira”. Não minimize o que ela sente.

E o que fazer então para ajudar a criança a superar a timidez?

Primeiro, compreender que não é necessário querer mudar a personalidade da criança, respeitar o seu tempo, os seus limites. Afinal, nem todo mundo precisa ser comunicativo e extrovertido.
Mas é possível “treinar” a criança para determinadas situações onde ela tem vivenciado dificuldades e prejuízos. Por exemplo, muitas crianças tímidas tem muito medo de serem chamadas pelo professor na escola para responder a alguma pergunta, ou para ir até a frente da sala auxiliar em alguma tarefa. Uma boa dica é “ensaiar” em casa estas situações que causam medo e ansiedade na criança. Os pais podem, inclusive, trocar de papéis com a criança durante as encenações: algumas vezes a criança é o aluno, outras vezes ela é o professor e assim os pais demonstram como ela poderia agir diante daquela situação, mostrando a ela as alternativas possíveis.

É importante conversar com ela sobre o medo que tal situação causa, perguntando a ela o que ela acha que poderia acontecer e tentando “desconstruir” estes medos, explicando como lidar naquele momento. Essas encenações podem ser feitas por meio de jogos e brincadeiras, assim a criança se sentirá mais motivada a participar.

Outra dica é valorizar as pequenas evoluções da criança. Sempre que ela fizer um novo amigo, cumprimentar alguém ou emitir outros comportamentos que são novos para ela, elogie! Preste atenção mesmo aos pequenos esforços dela. Isso irá ajuda-la a perceber que mudar sua atitude é algo positivo e que seu empenho é reconhecido. É melhor reconhecer suas conquistas do que criticar um comportamento. As críticas excessivas desmotivam e desencorajam a criança.

Há alguns casos, porém, que necessitam de atenção especial e a intervenção de um psicólogo é importante. Casos estes em que a família nota não haver evoluções, onde a criança se fecha totalmente para o convívio em sociedade e contato com outras pessoas. Onde há prejuízos para sua vida, como por exemplo, recusa persistente em ir para a escola ou sair de casa, ausência ou pouquíssima fala com pessoas que não sejam de seu círculo familiar (neste caso, pode estar presente um transtorno chamado de “mutismo seletivo” – que é quando a criança conversa apenas com pessoas de seu convívio, normalmente um círculo restrito, interagindo normalmente com elas. Já com outras crianças ou adultos, esta criança se mantém calada e evita).

É possível que haja outros fatores que contribuam para a retração da criança, como dificuldades em situações específicas na escola, no ambiente familiar ou ainda a presença de outros transtornos.

Tudo isso poderá ser avaliado da forma adequada por um psicólogo, então nestes momentos é importante buscar esta orientação e assim encontrar alternativas para lidar com cada caso em particular.

Fonte: http://psicologiaacessivel.net/2016/02/05/timidez-infantil-quando-e-a-hora-de-buscar-ajuda/

Referência:
Peixoto, A. (2006). Mutismo Seletivo: prevalência, características associadas e tratamento cognitivo-comportamental. Tese de Doutoramento . Rio de Janeiro.